sexta-feira, 25 de maio de 2012

NAMORO - Biblico - Paulo Junior

Alma de Lata, Coração de Pedra e Nervos de Aço


Alma de Lata, Coração de Pedra e Nervos de Aço




Eu fui me desumanizando aos poucos, num processo lento, imperceptível. A transformação de um ser humano em “máquina” é uma das grandes “maravilhas” da sociedade contemporânea. É quase inacreditável, mas, quando você se dá conta, seus sentimentos já se embotaram, sua alma ficou árida, ácida, sua sensibilidade exilou-se nas cavernas sombrias do seu ser, seu coração tornou-se impermeável. Como diz a canção nostálgica do Pink Floyd, agora você está “confortavelmente anestesiado”.

Eu não sei como tudo começou... Talvez ainda bem cedo, na adolescência, quando me apaixonei pela informática. Lembro de Alan Turing: “as máquinas me surpreendem com muita freqüência”. Nos últimos 25 anos tenho trabalhado com computadores desenvolvendo sistemas. Durante boa parte deste tempo, convivi mais com eles do que com gente, acabaram tornando-se tão íntimos que nós até conversávamos, era possível demonstrar raiva, frustração, alegria, e outros sentimentos que, quando eu era humano, sentia...

Nesta mesma época eu tive contato com a “religião”. Minha experiência de "conversão" mudou minha forma de agir, mas não minha maneira de pensar. Talvez este tenha sido o maior de todos os problemas, eu me tornei “mestre em Israel”, mas minha alma estava esvaziada de valores como a misericórdia, a compaixão, o perdão, a humildade e o amor. Meu lado “máquina”, movido pela “letra que mata”, me converteu num soldado lutando pela causa da “igreja”, mas eu ainda não podia perceber o quão estava distante de Jesus de Nazaré e do Evangelho.

É difícil admitir, mas, em pouco tempo, havia me tornado um workaholic espiritual, um jovem “viciado” em fazer, realizar, pois tudo era urgente, o mundo estava perdido! Minha agenda surpreendia até pastores: eu evangelizava nos hospitais, cantava nas praças, pregava nas ruas, me reunia em pequenos grupos, participava de cultos, vigílias, reuniões de oração, escola dominical, movimentos de todo tipo, da minha comunidade e de outras, lia compulsivamente as Escrituras, livros devocionais, comentários bíblicos, ouvia mensagens pela TV, em fita cassete, eu não parava, eu não descansava, afinal, estava investindo tudo no “reino”, acumulando “galardão”, servindo ao “senhor”.   

Hoje, olhando para trás, vejo que tudo aquilo foi feito por mim e para mim, não para Deus. Era a minha obra, o meu reino, o meu ministério, as minhas prioridades, os meus caminhos, a minha mensagem, o meu evangelho, as minhas convicções. Ao largo de tudo aquilo estava Jesus; nós estávamos no mesmo caminho, mas caminhando de maneira totalmente diferente. Não creio que Ele tenha desprezado a minha alma, pois eu “estava perdido, mas fui achado, estava morto, mas revivi...”.

Sei que demorou muito até eu perceber, pois a “máquina” estava programada para cumprir, não para pensar, para falar, não para ouvir, para ler, não para discernir, para trabalhar, não para amar. Eu “acordei” quando me voltei para as Escrituras: “pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Mt. 25:35-36. Sim, na minha religião só havia Deus e eu, mas não existia o outro e, sem o outro, não há como amar a Deus, pois, se não amo aquele a quem vejo, como poderei amar a Deus, a quem não posso enxergar?!

Eu já estive muito ocupado com a “obra de deus”, mas, há alguns anos, isto mudou. Percebi que havia me embrutecido, me tornado duro, amargo, implacável. Sim, com um currículo com tantas realizações, era difícil algo me desafiar, mexer comigo. Mas da mesma forma como eu me perdi de mim mesmo, Deus foi me trazendo de volta, me resgatando para que eu pudesse ser aquilo para o qual fui concebido, e não aquilo que a religião havia feito de mim.

Como o “Pródigo”, eu havia chegado ao fim do trilho, no fundo do poço. Tinha “subido” institucionalmente, mas minha alma beirava o inferno, “sofria de distâncias”, revolvia-me em agonias e inquietações, padecia de calafrios ao meio dia. Eu era a antítese daquilo que havia sido chamado para encarnar no chão da Terra, havia me transformado num RoboCop da fé, sobrara de mim mesmo apenas os vestígios de um homem, minha alma era de lata, meu coração de pedra e meus nervos de aço.

A “viagem” de volta foi insólita... Eu andei pelo vale da sombra da morte; tinha todos os sintomas de quem estava sucumbindo, ainda que os médicos e os exames atestassem que minha saúde era boa. Eu me olhava e não me reconhecia, estava exausto aos 40 anos, havia feito tantas coisas e, ainda assim, sentia como se nunca tivesse feito nada, tornara-me um escravo da performance, neurotizado com metas e números.

Nos próximos anos, todavia, eu irei me dedicar mais a Deus, por isso, “trabalharei” bem menos para Ele. A duras penas aprendi que o que Jesus deseja é muito diferente do que eu estava fazendo. O Evangelho é simples, mas, como diz o sábio, “o simples é o contrário do fácil”.

Quer saber do que ele trata? Leia Isaías... “o jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda”. Is. 58:6-8. Creia: é apenas isto...

Carlos Moreira

O que é Batismo no Espírito Santo?

Oração: o que fazer quando nossas orações não são respondidas - William ...

Rev. Augustus Nicodemus - Romanos 1 - PVCALDAS 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012


Você tem Fome de Quê?

Carlos Moreira.

Alguns afirmam que já somos mais de 7,0 bilhões de pessoas no planeta. Nossa capacidade de produzir alimento, todavia, está para bem além deste número, ou seja, seria possível, hoje, saciar a fome da humanidade! Mas por uma conjuntura de fatores e interesses – políticos, econômicos, empresariais, sócio-culturais e até religiosos – pessoas continuarão morrendo sem ter o que comer, principalmente nos países do terceiro mundo e, de forma assustadora, no continente africano.

No passado, as nações guerreavam por causa da necessidade de terras. Quanto mais território, mais capacidade de produzir, de desenvolver a agricultura e a pecuária. Isto gerava vantagens na hora de negociar mercadorias, de exportar ao invés de importar, de fazer trocas e realizar negócios. Hoje, todavia, que adianta ter terras se não se possui as técnicas e máquinas necessárias para explorá-las, para transformar em riqueza aquilo que o solo oferece de graça. A guerra agora é pela tecnologia, pelo conhecimento, pela informação.

Eu tenho uma questão: você já passou fome? Sabe o que é ter a necessidade de se alimentar e não ter o que comer? Você já viu pessoas em busca de alimento: velhos, crianças, homens e mulheres, gente que, não tendo como se fartar, chega ao absurdo de comer lixo, aquilo que você joga fora, que não presta mais! Você já viu isso, ainda que em um filme?

E mais... Esta questão lhe choca de alguma forma? Você acha que ela lhe diz respeito? Bem, eu lhe afirmo que, provavelmente, não, porque essa situação está banalizada nos grandes centros urbanos, nós nos acostumamos com tudo, até com a desgraça a nossa porta. Creia-me, o imponderável pode se tornar comum pela repetição, a exaustão da exposição a uma determinada “cena” transforma o trágico em habitual, o sofrimento em coisa normal, o absurdo em nostálgico e o inaceitável em casual. A parábola do "Rico e Lázaro" nos ensina isto de forma objetiva. 

“Jesus respondeu: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos”. Jo. 6:26.

Já havia três dias que Jesus estava expondo as verdades do Reino de Deus a uma grande multidão que se aglomerara em torno dele no meio do nada. Elas estavam famintas, exaustas e perdidas. “Tenho compaixão desta gente”, disse o Galileu. Mas sua percepção ia para bem além do “estômago”. Ele sabia que aquelas pessoas precisavam comer, mas aquele tipo de fome podia ser saciada. O problema estava em outras dimensões, numa “fome” que não se aplaca facilmente, algo que às vezes só a sepultura consegue extinguir. Por isso o Nazareno falou sobre o fermento dos fariseus, que fazia o "pão" crescer, mas na perspectiva errada...". 

Todas as semanas eu vejo as pessoas se amontoando nas igrejas. Não há uma em que eu não seja procurado por dezenas que precisam de ajuda espiritual. É gente com fome... Mas, não raro, percebo que sua necessidade não tem nada a ver com o “Pão” que desceu do céu, pois elas não estão em busca de Jesus, de direção, de consolação, de confrontação, de sentidos e significados para o ser, de um propósito para existir que vá para além do espaço que se criou entre o prato e a boca, elas estão em busca de outro tipo de “comida”, de saciedade.

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” por questões existenciais. Estão em busca de poder, de ter, de crescer, de aparecer, de fazer. É gente que quer vencer no mundo, e não ao mundo, quer chegar ao “topo da pirâmide”, ir até o “pináculo do templo”. Eles só pensam no status quo, nas primeiras filas, nos lugares de destaque, nas aparições na mídia. Houve um homem assim, que queria dominar todos e tudo. Seu nome era Alexandre, “o grande”. Hoje, na lápide do seu mausoléu, está escrito: “um túmulo basta agora para quem não bastava o mundo inteiro”.        

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de prazer. Eles precisam ser felizes a qualquer custo, usufruir o momento, sorver cada gole de vida que lhes for possível, aproveitar cada instante como se fosse o último. Sim, buscam o que é “bom” e “belo”, o que faz a alma suspirar, o frenesi, a adrenalina. Não importa o que seja necessário: pode ser o sexo casual, fortuito, reciclado, banal; pode ser droga em forma líquida, pastosa, pedrada, seja para beber, para fumar, para cheirar; pode ser malhar, cortar, costurar, inflar, pintar, modelar, embelezar o corpo, adornar o exterior, parecer sem ser, pois ainda que do lado de fora tudo esteja lindo, o interior não passa de uma casa de aves de rapina, mal cheirosa e devastada.     

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de coisas. Eles buscam comprar, vender, trocar, amontoar. Precisam gerir posses, produzir bens, pois só se sentem seguros com dinheiro no bolso e ações na bolsa. Desgraçadamente, tornaram-se escravos do supérfluo, desejam o que não necessitam, correm atrás do que não precisam, quanto mais acumulam mais querem, possuem tudo e não têm nada; é gente pobre, cega e nu!

Naquela manhã, enquanto alimentava aquela gente, Jesus não discerniu apenas o imediato, o tangível, o concreto. Ele viu que a fome humana não era apenas aquela que fazia doer o estômago, mas uma que se projetava para muito além, pois naquela geração – arquetípica – estavam todas as gerações.

Por isso, afirmou profeticamente, “vocês me procuram não por causa do milagre, mas por causa do pão”, ou seja, o que vocês desejam não é a mim, mas aquilo que é próprio do chão da Terra, vocês não estão em busca do sobrenatural, mas do material, não desejam o transcendente, mas apenas aquilo que não os deixe “famintos” e carentes.

Você tem fome? E tem fome de quê? No sermão da montanha, em Mateus capítulo 5, Jesus fala dos que tem fome de justiça. Ele nos revela esta marca inquestionável do Reino de Deus. Quem dera na Terra houvesse gente com essa fome! As nações seriam diferentes, as relações seriam diferentes, os homens seriam diferentes!

Triste é reconhecer que os cristãos em nossos dias estão tão preocupados com suas questiúnculas pessoais que esqueceram que as multidões precisam ser "alimentadas", continuam exaustas e famintas! Sim, enquanto houver crianças mendigando pão, velhos pedindo esmolas nas esquinas, pais de família catando lixo para alimentar seus filhos e jovens cheirando cola para enganar a fome, a igreja atesta sua incompetência, sua incoerência e sua indecência. Enquanto não houver justiça entre os homens, o Reino de Deus será apenas uma utopia da religião, um discurso bonito entre os que tem fé, mas não tem obras.   

Infelizmente, eu pertenço há este tempo e faço parte desta geração que, notadamente, possui outros "apetites". Assumo minha parcela de culpa e não me eximo de minhas responsabilidades. Sei que vivemos um momento da história humana onde come-se lixo e  arrota-se caviar. Mas, fazer o quê? Para todos nós, implacavelmente, aplicam-se as palavras de Sêneca: “a fome não é exigente: basta contentá-la; como, não importa”.

Pregando Cristo no Antigo Testamento (3) | Voltemos Ao Evangelho

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